No entanto, esse passo-a-passo ainda só existe na imaginação dos pesquisadores. Na prática, tudo o que se conseguiu foi gerar uma coroa -um dente incompleto, sem raiz- na barriga de um rato. Apesar de insólita, essa conquista representa um grande avanço na chamada engenharia de tecidos -que consiste na utilização de células-tronco para gerar tecidos e órgãos biologicamente iguais e compatíveis com os seres humanos.
Gerar dentes na barriga de um mamífero não é exatamente uma novidade. Há dois anos, pesquisadores do Forsyth Institute obtiveram o mesmo feito com porcos. Apesar dos resultados, surgiram algumas dúvidas quanto à dissociação incompleta do tecido dental -em bom português, isso quer dizer que nem sempre os dentes formados tinham a dentina, o esmalte e a polpa, tal como foi obtido agora. Outra diferença é que, em porcos, a formação de um dente levou até 30 semanas. Em ratos, em apenas 12 semanas já foi possível reconhecer pequenas coroas.
Depois dos sucessos com os dois mamíferos, os cientistas brasileiros e americanos estão começando a trabalhar com tecido humano. Segundo Monica Dualibi, "ainda precisamos entender como as células humanas funcionam."
"Dentro de um ano, esperamos determinar se os métodos utilizados em animais serão úteis para regenerar dentes humanos", diz Pamela.
Os cientistas ainda terão desafios pela frente. Precisam descobrir como construir um dente completo, e não somente a coroa. Além disso, como gerar as estruturas de suporte, como os ligamentos, o osso alveolar e o cemento radicular (um tecido mineralizado), que fazem com que o dente se sustente no lugar.
O principal obstáculo, no entanto, não é científico. Segundo os cientistas brasileiros, é necessário US$ 1 milhão para bancar o prosseguimento das pesquisas pelos próximos sete anos -dinheiro que eles esperam obter junto a órgãos de fomento no país.
Se as verbas entrarem e tudo o mais der certo, os cientistas esperam que em até 10 anos a técnica esteja disponível para o uso em pessoas.
A utilização de células-tronco adultas trouxe algumas vantagens aos pesquisadores. Em primeiro lugar, eles se livraram da celeuma ética que envolve as células-tronco embrionárias, que só podem ser obtidas, como o próprio nome diz, em embriões. A pesquisa com essas células está prestes a ser banida nos EUA e no Brasil, devido a pressões de grupos religiosos.
Em segundo, as células adultas se diferenciam menos do que suas primas mais jovens. Uma célula embrionária pode se tornar qualquer coisa, enquanto uma adulta "tem uma diferenciação bem mais controlada", como explica Monica.
Por fim, utilizar células da própria pessoa minimiza em muito um dos principais riscos dos implantes: a rejeição por parte do receptor, ocasionada pela reação do sistema imunológico.
Questão social
Além do caráter científico, regenerar dentes seria um grande passo em termos de saúde pública. No Brasil, aproximadamente 15% da população simplesmente não tem dentes, e mais de 35% dos indivíduos acima dos 50 anos não apresentam dentição completa, de acordo com números do Ministério da Saúde. Segundo Monica Duailibi, "a perda dentária acarreta problemas com a aparência, a nutrição, e acima de tudo com a saúde. Nosso objetivo é um dia solucionar esses problemas".
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